Insatisfação

Tenho sentido uma insatisfação crescente no trabalho acompanhada de tédio e uma tendência procrastinadora que me assusta. Como sustentar isso a longo prazo?

Processos repetitivos, alegações repetitivas, mais do mesmo todo dia. Sem contar a beligerância característica dos processos que tramitam em varas de família. Isso cansa.

A minha estratégia para aplacar o desânimo e a desmotivação vinha sendo mudar de lotação periodicamente. Pela minha experiência, 1 ano é normalmente o prazo em que começo a ficar entediada de lidar com processos da mesma matéria e 2 anos é o prazo máximo. Sinto que fico no meu limite depois disso.

Sempre achei que o problema por me sentir assim estivesse em mim, porque vejo muitos analistas trabalhando há anos com a mesma chefia e com a mesma matéria.

Por outro lado, sou capaz de ponderar que foi a insatisfação que me fez estudar, fazer uma segunda graduação depois de me tornar mãe e passar em um concurso de analista, deixando de ser técnico.

Não me arrependo. Mas continuo insatisfeita. Reconheço a motivação que a insatisfação é capaz de gerar. Mas seria isso um ciclo sem fim? Estaria eu condenada à insatisfação?

No livro **(In)distraível, Nir Eyal** esclarece que essa insatisfação não só é normal, como também representou um diferencial evolutivo do ser humano. Sinto-me consolada.

A insatisfação e o desconforto dominam o estado normal do nosso cérebro, mas podemos usá-lo para nos motivar, em vez de nos deixar derrotar. (…) Para mobilizar esse poder, precisamos tirar da nossa cabeça a ideia equivocada de que, se não estivermos felizes, não somos normais. Pelo contrário. Isso tudo pode ser um balde de água fria, mas também pode nos dar uma liberdade incrível. É bom saber que na verdade não é ruim sentir-se mal; é exatamente o que a sobrevivência do mais apto pretendia.

Uma das saídas apresentadas pelo autor é aprender a encarar uma tarefa difícil e tediosa como algo divertido, com base no trabalho de Ian Bogost, que escreveu, entre outros livros, Transforme qualquer coisa numa Brincadeira. Ian entende que diversão não está necessariamente ligada ao prazer. Segundo Nir Eyal:

Embora a diversão não precise necessariamente ser prazerosa, ela pode nos libertar do desconforto, que, não podemos esquecer, é o principal fator que motiva a distração. (…) Bogost explica que “a diversão é o resultado de manipular deliberadamente uma situação conhecida de uma nova maneira". A solução, portanto, é concentrar-se na própria tarefa. Em vez de fugir da dor ou usar recompensas como prêmios e guloseimas para nos motivar, a ideia é prestar tanta atenção à tarefa a ponto de ser capaz de encontrar novos desafios que você não tinha visto antes. Esses novos desafios nos dão um senso de novidade, o que ajuda a instigar nosso interesse e manter o foco quando somos seduzidos por distrações. (…) Bogost dá o exemplo de cortar a grama. (…) “Primeiro, preste muita atenção aos detalhes, mesmo se parecerem bobagens ou até absurdos". (…) Para usar uma máxima popular, “A cura para o tédio é a curiosidade. Não há cura para a curiosidade".

Vejo, então, que minha estratégia de mudar de lotação aguça a minha motivação pois traz a novidade da matéria. Por outro lado, eu sou naturalmente curiosa e gosto de me ater a detalhes, características indesejáveis quando o volume de processos dita o ritmo de trabalho. Explico.

Eu não vejo o tempo passar quando preciso fazer uma pesquisa para fundamentar uma manifestação e me esforço para fazer uma minuta inovadora (sem modelos prévios). É essa a parte criativa do trabalho que me traz mais satisfação.

Por outro lado, enquanto eu perco tempo com isso, há inúmeros processos chegando e lotando a caixa de entrada, que precisam ser despachados, de preferência no mesmo dia, porque amanhã tem mais. Quero dizer, a lógica produtiva do trabalho não deixa espaço para aquilo que me traz mais prazer e motivação no trabalho: a elaboração de uma solução criativa, não amparada em modelos prévios, a partir da curiosidade, e que me conduz ao aprendizado.

Porém, não importa se levamos 3 dias ou 30 minutos para fazer uma manifestação. No fim do mês, a remuneração é a mesma. Em nosso relatório de produtividade, por sua vez, o processo em que nos debruçamos por horas terá o mesmo valor que um processo repetitivo, cuja minuta é um mero “copia e cola”.

Além disso, sinto um desconforto, por falta de palavra melhor, ao me deparar com uma peça de uma colega que copiou e colou a fundamentação que eu demorei horas para elaborar. E a chefia dela muito provavelmente dará os créditos para ela, não para mim, pois não tem a menor ideia de que o trabalho e o esforço vieram de mim.

No fim do dia, tudo o que importa é fazer uma manifestação tecnicamente correta, razoável e, de preferência, sucinta. Porém, dependendo do caso, é até mais demorado fazer isso do que uma peça enorme.

Para finalizar, até a redação que era um grande diferencial meu, modéstia parte, deixou de ser. Agora temos uma ferramenta de inteligência artificial que nos permite, com apenas um clique, reescrever todo um texto, que, em segundos, pode ganhar a qualidade que um redator mediano não possui.

Agora entendo porque vim parar aqui.

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