Teletrabalho
O trabalho não presencial aumentou exponencialmente minha qualidade de vida em razão da flexibilidade de tempo. Por exemplo, 1 hora de deslocamento no trânsito significa uma hora disponível no dia, que posso utilizar para a prática de atividades físicas, considerada medida de saúde física e mental, e que se reflete, de maneira irremediável, na produtividade do servidor.
Além disso, permite o exercício da maternidade de maneira menos sobrecarregada, especialmente para mães que, como eu, contam com escassa rede de apoio. Organizo-me para começar a trabalhar pela manhã de modo que, à tarde, posso buscar minha filha na escola, sem ter de custear transporte escolar ou ter preocupações de organização da logística, um trabalho invisibilizado, que gera estafa mental.
Quando me sinto muito cansada, indisposta ou até mesmo quando tive COVID, tenho a possibilidade de, com autonomia e responsabilidade, reorganizar meu trabalho de modo a respeitar meu corpo, que pede um tempo a mais de descanso, sem ter de comparecer ao médico e pedir atestado - caso haja condições mínimas de trabalho evidentemente.
Para além, com o trabalho não presencial, não preciso me preocupar em preparar marmitas nem gastar com alimentação fora de casa, que pesa no orçamento do servidor, cuja remuneração tem pouca ou nenhuma possibilidade de acréscimo com verbas indenizatórias.
Em suma, o trabalho não presencial no contexto da vida do servidor implica indiscutível qualidade de vida, redução de custos financeiros, tanto institucionais quando individuais, aumento da satisfação e motivação no trabalho, menos estresse e, por consequência, menos afastamentos por adoecimento psíquico. As vantagens e benefícios são inúmeros e compensam, de certa forma, a defasagem remuneratória.
Assim, trabalhar mais vezes presencialmente durante a semana significará, na maioria dos casos, um retrocesso, sobretudo porque a medida desconsidera uma gama de variáveis complexas e não mensuráveis quantitativamente.
Morgan Housel, que, em seu livro A psicologia financeira, escreveu a respeito do dinheiro, que substituo aqui por teletrabalho:
O grande valor intrínseco do teletrabalho - e nunca é demais repetir isso - é a capacidade que ele nos dá de termos [parcial] controle sobre o nosso tempo. (…) Usar o teletrabalho para ganhar tempo e poder de escolha proporciona um estilo de vida com o qual pouquíssimos itens de luxo podem competir.
Nesse cenário, a grande indagação que fica é: qual o sentido de mandar um servidor se deslocar de sua casa, com dispêndio de tempo, gasolina/passagem e vestuário, para, ao chegar no local, abrir o computador e executar o mesmíssimo trabalho que faria do conforto de sua própria casa, sem com isso comprometer a qualidade do atendimento ao público, que tem sido perfeitamente satisfeito com as escalas de atendimento e/ou com servidores específicos destacados para essa atividade?
Se a preocupação é com a interação e integração entre os integrantes da instituição, há muitas alternativas interessantes de se fazer isso, sendo que estar presencialmente no local de trabalho não necessariamente estimula esses benefícios, especialmente se dissociados de uma cultura e de um clima organizacionais que os franqueiem.
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